A avaliação interna das organizações escolares como estratégia política
As recentes
políticas públicas nacionais, recaem sobre a administração local das escolas,
têm apontado no sentido da deslocação competências ou procedimentos mais
centralizadoras para territórios locais, de maior proximidade com as unidades
de gestão escolar, e sobre as quais têm poder de influência (Haecht, 1998).
As novas
possibilidades, de “globalização”, contribuíram para uma profunda viragem no
contexto da articulação comunicacional em que surgiu o paradigma do
relacionamento do Estado com os cidadãos emergente na Europa do pós‑guerra. No
âmbito educacional, os estudos sobre os efeitos da globalização têm‑se
desenvolvido de forma diversa, desde os trabalhos de John Mayer e as teorias
desenvolvidas sobre a world mass school (Mayer, Kamens & Bena‑ vot, 1992),
bem como nas hipóteses sobre os sistemas auto‑referenciais (Schriewer, 2001),
estendendo‑se para teses mais recentes sobre as consequências desses efeitos na
construção de uma cultura educacional mundial (Dale, 2004).
As novas
formas de regulação e integração dos sistemas públicos tornam‑se aplicações
instrumentais de processos de conhecimento que passam por referenciais de
comparação e lógicas de eficiência que influenciam a decisão política (policy
learning) (Ozga, 2006). Entre a concepção de políticas públicas (policy‑making)
a uma dimensão supranacional e a acção concreta em contextos locais (policy
implementation) observa‑se um efeito vertical de circulação e tradução de
conhecimento entre os diferentes níveis de decisão e acção pública e uma expansão
horizontal e mimética que traduz a transnacionalidade dos novos modos de
regulação política (Silva, 2006; Solaux, 2005).
A
autoavaliação das escolas enquanto instrumento de regulação pública é tida como
a expressão de referenciais de conhecimento que induzem novas modalidades de
governação.
A
normalização, os standards ou outros indicadores de qualidade constituem também
instrumentos de acção pública na medida em que são portadores, de uma forma de
saber sobre o poder social e, por outro lado, produzem efeitos nem sempre
coincidentes com os objectivos pretendidos.
O
conhecimento centrado na performance das escolas não se exerce no plano exclusivamente
“técnico”: a sua difusão transporta também um potencial regulador que propõe
aos actores modos de regulação alternativos que substituam a compulsão pela
persuasão e surjam associados a uma ideia de qualidade e boas práticas na
prestação de um serviço público. É um regime que, como observa Barroso (2005),
trata de substituir um controlo directo e apriorístico sobre os processos, por
um controlo remoto e, a posteriori, incidente sobre os resultados.
Os
mecanismos de avaliação interna são considerados instrumentos de acção pública,
não só pela dimensão local onde são aplicados como por recortarem, através dos
seus indicadores, um referencial de qualidade determinado por um conjunto de
valores estabelecidos pelo domínio político e caucionados pelo conhecimento.
Enquanto
instrumento metodológico, o recurso à entrevista, seja semi‑directiva,
informativa ou retrospectiva, tornou‑se um dos utensílios mais utilizados na
investigação em política pública, mesmo sob diferentes opções teóricas
adoptadas, tornando‑se uma prática incontornável na obtenção de dados qualitativos
em ciências sociais (Bongrand & Labo‑ rier, 2005; Creswell, 2003).
As zonas de conhecimento envolvidas nos instrumentos de
avaliação estão associadas à definição e difusão de padrões de qualidade, de
“boas práticas” ou benchmarking, de standards, indicadores, estatística, toda
uma vasta gama de referenciais que pretendem escrutinar e posicionar
estatisticamente diferentes realidades locais, enquanto a dimensão política se
cruza com o conhecimento e a necessidade de produzir novos modos de regulação
associados a uma racionalidade justificativa que reforce a inevitabilidade da
sua aplicação
É possível traçar como objectivos principais:
1. A
identificação das alterações nas estruturas e modos de exercício de poder bem
como a relação entre essas mutações e a influência do conhecimento na produção
de alterações regulatórias.
2. Considerando
a circulação de conhecimento entre a dimensão supra‑nacional, centralizada, e
a sua progressiva atomização nacional e local.
Espera‑se
chegar a um melhor entendimento do percurso das políticas públicas de avaliação
interna da rede escolar e as suas relações com estratégias europeias de
desenvolvimento que propõem a efectivação de um espaço educacional europeu de
excelência.